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CADEIRA 26

Gervásio Fernandes Bonavides
(João Pessoa-PB, 11/04/1897 -
Santos, 24/04/1953)

Gervásio Fernandes Bonavides nasceu na rua das Trincheiras, num belíssimo casarão no centro de João Pessoa, no dia 11 de abril de 1897. Era o segundo filho de Neófito Fernandes Bonavides, alto funcionário do Estado da Paraíba e de Adelaide Bonavides Lins, senhora de nobre família paraibana e prima irmã do escritor José Lins do Rego, que fora criado em sua casa

Gervásio fez seus primeiros estudos em João Pessoa-PB e, ainda muito moço, militou na imprensa e exerceu o magistério. Nascido em lar próspero, onde a intelectualidade era reconhecida como uma das maiores riquezas, e, tendo findado as possibilidades de evolver nos estudos em sua cidade natal, mudou-se para Recife, na ocasião, maior centro estudantil da região, e subsidiado pelos pais, cursou a Faculdade de Direito do Recife.

Na cidade do Recife, continuou com maior decisão a atividade jornalística, servindo à redação do Correio de Pernambuco. No ano de 1922, Gervásio se formava em Ciências Jurídicas. A capital do Brasil era o Rio de Janeiro, o ano era de "arte moderna" em São Paulo.

O noviço advogado queria ampliar seu universo e, premido pelos devaneios juvenis, foi para o Rio de Janeiro. Ao término de um trimestre na cidade, viu que seu futuro não estava lá, e sim na cidade de Santos, que estava ficando conhecida por sua prosperidade. O café, maior riqueza do país, tinha toda sua produção comercializada na cidade portuária, no suntuoso prédio da Bolsa Oficial do Café, na rua XV de Novembro, onde, até hoje, ostenta beleza e opulência.

Gervásio optou por Santos para exercer sua faina com obstinação e, erigir sua família com dignidade. Veio com recursos para comprar seu primeiro imóvel, na então festejada Rua 7 de setembro.

O intimorato advogado estabeleceu seu escritório, na Praça Mauá onde permaneceu por vários anos. Foram seus colegas de escritório o Dr.Pedro Felipe Lessi, Dr. Nicanor Ortis, Dr. Edu Brancato e Dr.Osmar Del Duque que, juntos, formavam uma das maiores bancas advocatícia da região.

Um ano após sua chegada a Santos, em 1923, comprou uma grande casa na Avenida Conselheiro Nébias, 309, onde hoje funciona o SENAC. Dizem que era a propriedade particular com maior área construída da cidade. Neste casarão fundou o seu COLÉGIO LUSO-BRASILEIRO, destacado estabelecimento de ensino da elite santista, que contava com um quadro docente de primeira grandeza, como: Dr. Carlos Bandeira Lins, Dr. Maurino Jofily, Dr. Pedro Felipe Lessi, , Dr. Olvaro Pereira de Carvalho, Mister Croner, entre tantos.

O COLÉGIO LUSO-BRASILEIRO foi formador de vários intelectuais e revelou inúmeras personalidades no cenário nacional. Foram alunos do colégio vultos como: Oswaldo Paulino, Clóvis Pereira de Carvalho, João Roberto Suplicy Hafers, Oscar Bezerra, Paulo Haydén, Osmar Gonçalves, Haroldo Cunha, os irmãos Frederico e João Câmara Neiva, Alaor Leite do Amaral, Otávio Ratto, Mauro Neves Gomes de Sá, Hércules Faro e outros.

Fundou, como professor e proprietário de estabelecimento de ensino, conjugado com seus alunos, o combatível Centro dos Estudantes de Santos, que tantas lutas empreendeu para a construção da democracia, mormente no período ignóbil da ditadura, e que, até hoje tem papel importante na sociedade, principalmente na vida estudantil.

Contava com 26 anos de idade, era um homem culto, inteligente e empreendedor. Advogava com brilhantismo, era proprietário de colégio, professor de Português, História e Geografia.

Os anos que se seguiram foram de muito trabalho, porém em 1927 o reconhecimento veio quando, por ato de Júlio Prestes, foi nomeado membro do Ministério Público do Estado de São Paulo, passando a exercer, em Santos, o cargo de CURADOR GERAL DA COMARCA, o que na época, não o impedia legalmente de continuar, concomitantemente, na sua próspera advocacia, nem no exercício do magistério, nem tão pouco na condição de dono de colégio.

Passava, então a ser o CURADOR GERAL DA COMARCA , comarca esta que, na época, abrangia as cidades de Santos, São Sebastião, São Vicente, Cubatão, Guarujá, Bertioga e Praia Grande.

O então Promotor de Justiça de Santos, Dr. Gervásio, em um Baile, no tradicional e renomado Clube XV, conheceu a senhorita Julieta de Azevedo, que residia em São Paulo e veio à Santos a passeio. Moça fina da sociedade paulistana, filha do Desembargador Manoel Polycarpo de Azevedo Júnior, que ocupou a vaga do nosso Poeta Vicente de Carvalho na alta corte estadual. O Desembargador Polycarpo foi Presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo por duas vezes.

Julieta e Gervásio casaram-se em 1928 e desta união nasceu um único filho em 28 de outubro de 1932, o Dr. Paulo José de Azevedo Bonavides, alcandorado intelectual santista, Delegado de Polícia, Professor Universitário da Universidade de São Paulo- U.S.P e da Universidade Santa Cecília – Unisanta, Presidente do Clube XV por duas ocasiões, Presidente da Academia Santista de Letras, em três gestões. Teve assento neste Instituto na Cadeira de Prudente de Morais, que hoje, por brilhantismo atávico, pertence ao seu filho, o Promotor de Justiça Dr. Paulo José Gallotti Bonavides.

O casal comprou uma boa casa na avenida Washington Luiz, 549, no canal 3, onde doravante moraram. Lá cresceu seu filho e, anos depois, seus netos. Nos dias atuais, no mesmo local, há um edifício com o nome de "Julieta Bonavides", onde mora sua nora, D. Leopoldina Gallotti Bonavides e um neto, Dr. Fernando Gallotti Bonavides.

O Dr. Gervásio pertenceu a Santa Casa de Misericórdia de Santos, cuja Mesa Administrativa prestou dedicados serviços e, até os dias de hoje, em sua entrada principal ostenta placa com seu nome, em homenagem e agradecimento.

O Poder Judiciário prestou homenagem semelhante, afixando placa alusiva aos 28 anos no cargo de Curador Geral da Comarca no hall principal do Fórum da praça José Bonifácio, em Santos.

Foi um dos fundadores da Faculdade Católica de Direito de Santos e fora designado para reger a cátedra de Direito Internacional Privado, quando a morte o surpreendeu.

Viveu maior parte de sua vida em Santos, era torcedor entusiasmado do nosso Santos Futebol Clube, onde tinha cadeira cativa no estádio Urbano Caldeira, na Vila Belmiro, a vila mais famosa do mundo. Era sócio do Clube XV e do Tênis Clube de Santos desde os primórdios anos de sua fundação. Integrou o Instituto Histórico e Geográfico de Santos, sodalício respeitado que lembra um punhado de gente idealista - Valentim Bouças, Francisco Martins dos Santos, Durwal Ferreira, Júlio Conceição, entre outros.

Defendeu, sem pusilanimidade, - o Bem e a Justiça - e, exerceu com absoluta probidade o desempenho da função pública.

De seu quinhão, na herança de seus pais, renunciou, pois venceu sozinho, com seus próprios méritos intelectuais, em uma terra nova e sem nenhum tipo de apadrinhamento, porém, apesar de distante, nunca perdeu o vínculo com a família nordestina de que muito se orgulhava e, por várias vezes, no decorrer daqueles anos, foi de navio com sua esposa e filho, passar férias com seus entes queridos.

Era um homem alegre, divertido e brincalhão, gostava de fazer charadas, mas sua melhor característica era a bondade e a generosidade com o próximo. No exercício de sua função, ou na vida privada sempre foi excessivamente caridoso o que lhe rendeu fama e gratidão eterna de muitos que o conheceram.

Contava com apenas 56 (cinqüenta e seis) anos de
idade, estava indo com seu carro, dirigido pelo seu dileto amigo Dr. Quintino Ferreira Millás, ao encontro de sua família, em uma estação de Águas, quando, na subida da serra, na via Anchieta teve um enfarto e, retornou a Santos. Foi internado na Santa Casa, onde faleceu. Era 24 de abril de 1953.

Foi decretado, pelo então Prefeito, luto oficial nos 3 dias que se sucederam. Como homenagem, a Câmara Municipal de Santos, por unanimidade, fez doação do jazigo, no cemitério do Paquetá, onde repousam seus restos mortais. Houve uma grande comoção na cidade e na região. O cortejo fúnebre foi a pé da Santa Casa ao Cemitério do Paquetá, com a multidão acompanhando o féretro.

Entre elas, destaca-se as municipalidades que ofereceram seu nome a vias públicas, tais como: João Pessoa, Santos, São Vicente, Guarujá, Cubatão e Praia Grande. Sua conduta retilínea foi sempre pautada na ânsia de verticalidade moral, portanto legou às gerações porvindouras, um patrimônio valioso - um testamento moral de dignidade - insuscetível de perda ou extravio, oposto ao que acontece com os bens materiais.